VIDA E OBRA DE UM DOS INTELECTUAIS MAIS BRILHANTES E AFETUOSOS QUE O BRASIL PRODUZIU
ESPAÇO PARA ADMIRADORES E AMIGOS DE VICTOR GIUDICE DEIXAREM SEUS TESTEMUNHOS E MENSAGENS. E AINDA PARA ENCONTRAR SEUS TEXTOS, SONS, IMAGENS E ENTREVISTAS.
Você chegou a um local muito especial na Internet. Este é o site-memória do escritor, professor, crítico e músico Victor Giudice (1934-1997), que foi, antes de mais nada, uma pessoa deliciosa.
Você pode encontrar seus livros nas livrarias, seus artigos nos arquivos da imprensa e seu rastro luminoso na lembrança de amigos, ex-alunos e colegas de suas diversas áreas de atuação.
Aqui neste site, você é convidado a um passeio panorâmico pela vida, obra e reputação de um dos intelectuais mais brilhantes e afetuosos que o Brasil já produziu. Aqui também, você pode saber mais sobre as publicações póstumas de sua obra, as traduções, os estudos universitários, os programas de televisão que mantêm bem viva sua produção ficcional.
Boa viagem!
UM MENINO POPULAR
Victor Marino del Giudice nasceu em Niterói, no dia 14 de fevereiro de 1934. Seus pais eram artesãos: Marino Francisco del Giudice, de origem italiana, fabricava chapéus enquanto ainda se usavam chapéus; Dona Mariannalia del Giudice, católica, era exímia bordadeira, com suas mãos “barrocas” de “fada branquíssima”, como o filho a descreveria (ou fantasiaria) no conto Minha mãe. A maneira como se referia aos pais pela ausência, presente também no conto A única vez, este sobre o pai, só faz enfatizar a importância da tia Elza, professora de piano com quem o pequeno Victor convivia mais intensamente e a quem chamava de “mãe”.
Quando Victor tinha cinco anos, a família mudou-se para o bairro de São Cristóvão, no Rio, que se tornaria seu “país” ficcional e referência de origem para sempre. “Quando se nasce e se cresce em São Cristóvão, logo se aprende que em São Cristóvão todas as coisas são de São Cristóvão”, diria o personagem semi-autobiográfico do seu conto A glória no São Cristóvão. Victor foi um menino popular, que magnetizava os colegas de rua com suas histórias. Começou, portanto, a se desenvolver na infância uma das facetas mais sedutoras de sua personalidade carismática. Com as astúcias de um legítimo entertainer, que mistura lembrança e invenção de maneira indistinguível, ele enredou pela vida afora todos os que cruzaram seu caminho.
O AMOR PELAS IMAGENS
A cinefilia infantil se perpetuaria na vida adulta, com um afeto especial pelo cinema clássico europeu: Visconti, Fellini, os primeiros filmes de Monicelli, os de Totò, Carné, Clouzot, as comédias inglesas dos anos 40 e 50 e a nobreza de Laurence Olivier à frente de adaptações shakespearianas como Ricardo III. Já o cinema americano era capaz de lhe despertar sentimentos conflitantes. Ao mesmo tempo em que admirava a eficiência e verossimilhança de suas narrativas, abominava seus chavões e a superficialidade na abordagem dos temas. Os filmes de Orson Welles e grandes musicais como O mágico de Oz, Cantando na chuva e Um americano em Paris estavam acima de qualquer restrição. Quanto ao cinema nacional, irritava-se com freqüência diante dos sinais de amadorismo que o infestavam até o final da década de 70. Apesar de não ter concretizado nenhum projeto nessa área – o final dos 60 e começo dos 70 registram uma obscura experiência de curta-metragem e alguns audiovisuais didáticos -, Victor gostava de rascunhar eletrizantes prólogos de filmes imaginários, capazes de deixar eventuais leitores com água na boca. O desenho e a fotografia também o atraíram desde muito cedo. A começar pelos ladrilhos da casa, que ele, subversivamente, estimulava os companheiros de infância a decorar com seus próprios traços. Comprava filmes baratos em bobinas e punha-se a fotografar a Quinta da Boa Vista, o Campo de São Cristóvão e principalmente os amigos, naquilo que foi o início de um duradouro culto aos portraits. O amor pela fotografia seria uma constante na vida de Victor. Ele teve fotos publicadas na revista O Cruzeiro (1969) e no semanário Crítica (1974). Durante vários anos, um dos cômodos de sua casa funcionou como laboratório de revelação fotográfica. Aos 16 anos, Victor perdeu o pai. A família morava então em Macaé (RJ), mas logo voltaria a São Cristóvão. Empregou-se aos 21 anos como artefinalista numa pequena agência de publicidade. Pintou anúncios em cortinas de teatro e, já nos anos 60, formado em Estatística, trabalhou como desenhista de gráficos para órgãos públicos. Mais tarde, ao consagrar-se como escritor, não se furtou ao prazer de criar as capas de seus livros Necrológio, Salvador janta no Lamas e O museu Darbot e outros mistérios, além de uma revista de comércio exterior editada pelo Banco do Brasil. Durante toda a vida, Victor cultivaria na intimidade os retratos e caricaturas de pessoas conhecidas, feitos em bico de pena, o esboço gráfico de personagens, e teve mesmo uma fase de pinturas em aquarela.